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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Nazaré

Eu estava esperando a van, para ir pegar o trem, para ir para a UERJ. Aí uma pessoa de longe perguntou: "tá esperando a kombi?" Eu nem sabia se era comigo e já fui respondendo "sim". Poderia ser mais um episódio da saga "aquele tchau não foi pra mim..." porém ela estava falando comigo sim. Conversamos durante uns 20 minutos. Foi o tempo exato do neto dela sair da explicadora e a minha van chegar, parecia combinado, quer dizer, parecia que a gente tinha combinado. Ela me contou que já trabalhou na Lagoa, para umas pessoas legais que enfileiravam os sapatos na área de serviço para ela lavar e deixavam a louça na pia até quase o teto. Tudo começou porque eu chamei o Maguin,é um cachorrinho que mora aqui no condomínio. Ela perguntou se eu gostava de cachorro, eu disse que sim, mas que não tinha um e tinha dois gatos... Aí ela falou que o cachorro da Lagoa fazia coco dentro do box do banheiro, as coisas e os animais se parecem com seus donos. Aquela conversa foi muito interessante, olha só: o Pedro estava rindo para ela, aí ela fez uma pergunta que eu nunca ouvi antes: "ele conhece muita gente da minha cor?" (ela é negra)... eu não sabia o que responder, ia dizer "claro!", mas soaria rude, aí eu disse, meio desconsertada : "sim, conhece". Entre outras muitas coisas eu nunca vou esquecer que ela falava sobre o trabalho na casa na Lagoa como se fosse natural, digo, como se fosse a coisa mais natural do mundo umas pessoas brancas e ricas tendo uma mulher negra como empregada. Ela me contou que dormia no trabalho e que cozinhava para eles... Queria saber o quanto ela ganhava, queria saber se era o suficiente para ela e a família, queria saber quem tomava conta de seus filhos enquanto ela ficava de babá de marmanjo... mas eu só sei o que ela me disse: que se chama Nazaré, que estudou muito mal até a primeira série, que queria ter estudado mais, que tinha voltado a estudar, mas parou para tomar conta dos netos enquanto a filha trabalha, que queria que a Escola aqui da esquina tivesse aula à noite para ela ir etc.
Sabe que o tema da minha monografia e de todas as minhas teses é "a mulher negra e o mundo do trabalho", e a dona Nazaré é uma frase nesse livro que eu vou passar o resto da minha vida relendo, reescrevendo, revisando, sublinhando, escondendo... É para ela que eu vou escrever, e para todas que, como ela, ainda querem voltar à Escola e aprender "não sei o quê".

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